Xiang Hu Bao: o que o consórcio chinês pode ensinar sobre o mercado de saúde
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Os fatores que causaram a ascensão e a queda do seguro de saúde chinês, Xiang Hu Bao, e a perspectiva de Rogério Scarabel sobre o caso
Uma mistura de seguro de saúde e fintech, essa era a ideia para o Xiang Hu Bao (XHB), o programa de assistência mútua desenvolvido pela Ant Financial, braço financeiro do Alibaba Group, em 2018.
Em chinês, “Xiang Hu Bao” significa ‘proteção compartilhada’ e consistiu em uma espécie de consórcio para indenizar e atender pessoas com até 100 tipos de doenças críticas – como câncer de tireoide, de mama, pulmão, lesão cerebral grave, entre outras.
Na época, a inauguração do XHB foi o resultado da tendência de envelhecimento da população – que, consequentemente, pressiona ainda mais os sistemas de saúde –, combinado a um período de ascensão das insurtechs – termo utilizado para as empresas de tecnologia que atuam no setor de seguros.
Após registrar mais de 100 milhões de usuários em apenas um ano de existência, chegando a 150 milhões no auge de sua popularidade, em 2020, o Xiang Hu Bao foi cancelado, em 2022. Assim, após a repentina alta popularidade, o que fez o programa perder tantos usuários a ponto de ser descontinuado?
Confira, abaixo, as principais razões que explicam essa ascensão e queda meteorica.
Como funcionava o Xiang Hu Bao
Diferentemente de um seguro de saúde tradicional, o Xiang Hu Bao operava como um sistema de mútua ajuda, sem cobrança antecipada de mensalidades fixas. Ao invés disso, o modelo funcionava da seguinte forma:
- Os participantes se inscreviam gratuitamente na plataforma via aplicativo Alipay;
- Quando um membro era diagnosticado com uma doença grave coberta pelo programa, ele recebia uma indenização – geralmente entre 10 mil e 300 mil yuans (cerca de R$ 8 mil a R$ 240 mil);
- O valor pago era rateado entre todos os participantes ativos, descontado automaticamente de suas contas vinculadas ao Alipay;
- Não havia mensalidade fixa: os usuários pagavam apenas quando havia sinistros a serem cobertos, dividindo o custo total entre todos.
Esse modelo de “seguro social baseado em blockchain e big data” prometia reduzir custos e aumentar a transparência, já que todas as transações eram registradas digitalmente e podiam ser auditadas pelos próprios participantes.
Os motivos do sucesso inicial
O Xiang Hu Bao cresceu rapidamente por alguns motivos específicos:
- Ausência de custo inicial – diferentemente dos planos de saúde tradicionais, não era necessário pagar mensalidades fixas, o que atraiu especialmente populações de baixa renda;
- Facilidade de acesso – bastava ter uma conta no Alipay, um dos aplicativos mais populares da China, para se inscrever;
- Confiança na marca Alibaba – a reputação da empresa por trás do programa gerou confiança entre os usuários;
- Cobertura de doenças graves – o produto preenchia uma lacuna real no sistema de saúde chinês, que possui cobertura limitada para tratamentos de alto custo.
Por que o programa foi descontinuado?
Apesar do sucesso inicial, uma série de fatores levou ao encerramento do Xiang Hu Bao em janeiro de 2022:
- Pressão regulatória – as autoridades chinesas passaram a exigir que produtos financeiros como esse operassem sob licenças regulatórias mais rígidas, similares às de seguradoras tradicionais;
- Aumento dos custos por participante – com a seleção adversa (pessoas com maior risco de saúde se inscrevendo mais), os custos rateados entre os participantes aumentaram significativamente ao longo do tempo;
- Redução na base de usuários – à medida que os custos subiam, muitos usuários ativos abandonaram o programa, o que aumentava ainda mais o valor rateado entre os que permaneciam – um ciclo vicioso;
- Escrutínio regulatório sobre grandes empresas de tecnologia – o governo chinês intensificou a fiscalização sobre gigantes como Alibaba e Ant Group, o que também impactou a continuidade de produtos como o Xiang Hu Bao.
A perspectiva de Rogério Scarabel
Para entender melhor as lições que o caso chinês pode trazer para o Brasil, conversamos com Rogério Scarabel, advogado especialista no setor de Saúde e ex-diretor da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Segundo Scarabel, “o modelo de mútua ajuda é interessante do ponto de vista de inclusão, mas apresenta fragilidades estruturais quando não há cálculo atuarial robusto por trás. Sem esse tipo de gestão de risco, o sistema se torna vulnerável à seleção adversa e a ciclos de aumento de custos que podem inviabilizar a continuidade do produto”.
O especialista também destaca que “a experiência chinesa mostra a importância de equilibrar inovação com regulação adequada. No Brasil, produtos inovadores como esse provavelmente enfrentariam desafios regulatórios semelhantes, já que a ANS exige garantias financeiras mínimas para operadoras de planos de saúde”.
Lições para o mercado brasileiro
O caso do Xiang Hu Bao oferece algumas lições importantes para o setor de saúde no Brasil, especialmente em relação a modelos alternativos de financiamento de saúde:
- Modelos de mútua ajuda podem ampliar o acesso, mas precisam de gestão de risco sólida;
- A regulação é fundamental para garantir a sustentabilidade de longo prazo de produtos inovadores de saúde;
- A tecnologia pode reduzir custos operacionais, mas não elimina os riscos atuariais inerentes a produtos de seguro;
- Iniciativas semelhantes já existem no Brasil, como os planos de saúde por adesão, mas ainda dependem fortemente do arcabouço regulatório tradicional.
Diante desse cenário, fica claro que, embora modelos disruptivos possam trazer soluções interessantes para os desafios do setor de saúde, a sustentabilidade a longo prazo depende de um equilíbrio cuidadoso entre inovação, gestão de risco e regulação.







